Ou sobre a coragem de admitir que alguns anos simplesmente nos atropelam – e depois dão ré para conferir.📆 2025 foi (e continua sendo), de longe, o ano mais difícil da minha carreira profissional.
Talvez tenha sido o mais difícil, ponto. E eu precisava dizer isso em voz alta – ou melhor, em texto público no LinkedIn, onde todo mundo só posta conquista e promoção – porque existe uma chance real de que você, que está lendo agora, também esteja atravessando algo parecido.
Se você está enfrentando uma demissão que não esperava, uma recolocação que insiste em não chegar, metas que parecem ter sido escritas por alguém que não conhece a realidade, projetos que travaram ou decisões que, olhando para trás, você faria bem diferente... respira fundo.
Este texto é para você. É para nós. Senta que lá vem história – mas dessa vez, sem final feliz garantido no roteiro. (Castelo Rá-Tim-Bum feelings, porém na versão adulta e sem mágica.)
Deixa eu contextualizar com dados – não para assustar, mas para você entender que não está sozinho. Miséria adora companhia, dizem. Eu prefiro dizer: "solidariedade nasce da vulnerabilidade compartilhada".
Segundo o Layoffs.fyi e TrueUp, mais de 152 mil profissionais de tecnologia foram demitidos globalmente em 2024, distribuídos em mais de 1.100 empresas. E se você achou que 2025 seria o ano da virada, tenho más notícias: até agora, já são mais de 120 mil demissões em quase 240 empresas. O setor de tech está dispensando gente mais rápido que startup pivotando modelo de negócio.
No Brasil, o cenário também pesa. Dados do Ministério da Previdência Social revelam que em 2024 tivemos mais de 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais – o maior número em uma década. Isso mesmo: quase meio milhão de pessoas precisaram parar porque a mente disse "chega". E os afastamentos por transtornos psicológicos dobraram em dez anos.
Por trás de cada número desses, existe uma pessoa. Com história, com família, com boletos. Com noites mal dormidas, manhãs difíceis de começar e aquela pergunta martelando: "O que eu fiz de errado?" Eu sei porque fiz parte das estatísticas. (E não, não adianta mandar mensagem oferecendo curso de como ganhar R$ 50k mensais trabalhando do meu laptop.)
Vamos falar abertamente sobre isso, porque fingir que não existe não ajuda ninguém. E eu prometi (um pouquinho) ser real hoje:
Aquela reunião que aparece na agenda como "alinhamento rápido" – e você, inocente, até prepara pauta – mas termina com sua vida profissional em suspenso. O crachá que você entrega. O e-mail corporativo que você perde acesso antes de conseguir processar o que aconteceu. Aquele arquivo pessoal que ficou no Drive da empresa e você nunca mais vai ver.
A sensação de que o chão sumiu. E você ali, de pé, sem entender como ainda está em pé.
"Vou aproveitar para descansar, há quanto tempo eu não tirava férias?";
"O mercado está aquecido, logo aparece algo.";
"Por que ninguém responde meus e-mails?";
"Será que meu currículo está com algum problema? Será que sou eu?";
[som de grilos e ansiedade crescente].
Aquele OKR ambicioso que parecia possível em janeiro – "este ano vai ser diferente!" – e que em dezembro virou aquele slide que você esconde no final do deck. Os números que não fecharam. O dashboard vermelho que parece piscar em código morse: "VOCÊ. NÃO. CONSEGUIU."
Semanas de planejamento. Dezenas de reuniões. Centenas de slides caprichados. Noites revisando detalhes. E no final, um e-mail de três linhas: "O board decidiu seguir outra direção." E você ali, segurando os pedaços de algo que acreditava. O Powerpoint mais bonito que ninguém nunca vai ver.
Aquela proposta que você recusou achando que viria coisa melhor. Aquela empresa que você escolheu pela marca no currículo. Aquele risco que parecia calculado na planilha, mas que a realidade não leu. A voz insistente na cabeça que pergunta, às 3h da manhã: "E se eu tivesse feito diferente?"
Quando você está no meio da tempestade, algumas coisas acontecem que são difíceis de explicar para quem está no sol:
De repente, todas as conquistas anteriores parecem ter sido golpe de sorte, timing, ou erro de avaliação de quem te contratou. "Sempre soube que uma hora iam descobrir que eu não sou tão bom assim. Chegou a hora."
Cada "Feliz em anunciar minha nova posição como Head de Alguma Coisa!" parece um holofote apontado para o seu fracasso. Cada "Parabéns!" nos comentários alheios ecoa no vazio do seu perfil sem novidades. Você começa a odiar o sino de notificações.
Os dias sem compromisso profissional parecem ter 847 horas. Os meses de busca passam voando. Você não sabe se está há semanas ou há uma eternidade nessa situação. Segundas e domingos ficam iguais – e isso não é bom.
Você descobre rapidamente quais conexões eram genuínas e quais existiam apenas por causa do cargo que você ocupava. Os contatos que somem doem. Mas os que ficam? Esses valem ouro. (Anota aí quem são. São poucos, mas são os certos.)
Depois de anos de agenda lotada, o vazio de um dia sem reuniões é aterrador. A produtividade que você usava como identidade some, e você se pergunta: "Quem sou eu sem um cargo?"
Existe algo que eu gostaria que alguém tivesse me dito – de preferência, alguém que não fosse coach quântico cobrando R$ 3k por mentoria:
Eu sei. Parece frase de pôster motivacional de academia. Parece legenda de foto de pôr-do-sol. Parece aquele conselho genérico que a gente ouve, agradece com sorriso amarelo e ignora porque não ajuda quando você está afundando.
Você já passou por coisas difíceis antes. Lembra daquela situação que, há alguns anos, parecia impossível de superar? Você superou. Aquela fase que você achava que não ia acabar nunca? Acabou. Aquele problema que tirava seu sono em 2019? Você provavelmente nem lembra mais qual era.
Você tem um histórico de sobrevivência de 100% nos seus piores dias. Estatística imbatível. Nem a S.E. Palmeiras tem esse aproveitamento 🐷. (Esse ano foi sofrido.)
A vida – e a carreira – é feita de ciclos. Mercados sobem e descem. Empresas crescem e encolhem. Setores que hoje demitem em massa são os mesmos que amanhã vão contratar desesperadamente e pagar salários absurdos de novo. Pessoas caem e levantam. Sempre foi assim. Desde que o mundo é mundo. Desde que LinkedIn é LinkedIn.
O setor de tech que hoje dispensa profissional como se não houvesse amanhã é o mesmo que em 2021 contratava qualquer um que soubesse escrever "Hello World". Pêndulos existem para balançar.
Eu sei que isso não paga as contas de dezembro. Mas talvez – só talvez – ajude a atravessar mais um dia. E dias somados viram semanas. Semanas viram meses. E quando você menos espera, está do outro lado.
Em uma cultura que glorifica a produtividade 24/7 e transforma "estou ocupado" em medalha de honra, admitir que você precisa de uma pausa parece atestado de fraqueza. Heresia corporativa. Crime contra o capitalismo. Não é.
Às vezes, a coisa mais estratégica – sim, estratégica – que você pode fazer é parar!
Não aquela respiração curta entre uma candidatura e outra. Respirar de verdade. Aquela respiração funda, de diafragma, que você não faz desde que o home office começou e a câmera ficou ligada o dia inteiro.
Será que o caminho que você trilhava era realmente o seu? Ou era o caminho que esperavam que você seguisse? O cargo que seus pais aprovariam? A carreira que ficava bem no currículo? Existe diferença entre o que você quer e o que te ensinaram a querer.
Talvez essa pausa forçada – por mais dolorosa que seja – esteja te dando a chance de reconsiderar algumas coisas. O que você realmente quer? O que te faz sentir vivo profissionalmente? As respostas podem ter mudado. E tudo bem.
Como o GPS do Waze quando você ignora três instruções seguidas: "Recalculando rota..." E tudo bem. A rota original não era sagrada. Nenhum plano de carreira sobrevive intacto ao contato com a realidade. (Spoiler: nem plano de vida.)
Parar é se dar a chance de escolher melhor o próximo passo. É pit stop, não abandono de corrida.
Nos meus momentos mais difíceis deste ano, sabe o que está me mantendo de pé?
Ele continua lá, intacto, com todas as experiências listadas em bullet points caprichados. Mas ele não me abraça quando eu preciso. Não me pergunta se eu estou bem. Não faz café! ☕️
As 500+ conexões do LinkedIn não mandaram mensagem perguntando se eu estava bem de verdade. (Mas mandaram oportunidade de marketing multinível. Obrigado, conexões!)
Ele impressiona em entrevistas, mas não cura a angústia das 3h da manhã quando você acorda e lembra que amanhã não tem para onde ir.
O que me sustentou – e ainda sustenta – são coisas que nenhum layoff pode tirar:
Aquelas que não estão ali pelo cargo, pelo salário ou pela influência que eu poderia ter. As que perguntam "como você está?" e realmente querem ouvir a resposta – mesmo quando a resposta é "não estou bem, não". As que não sumiram quando o crachá corporativo sumiu.
Se você tem uma pessoa assim na sua vida – uma que seja – você é mais rico do que qualquer promoção poderia te fazer.
Seja em Deus, no universo, na vida, ou simplesmente na possibilidade de dias melhores. Existe algo poderoso em acreditar que há um propósito maior que a gente não enxerga. Que existe um plano, mesmo quando o seu deu errado. Que amanhã pode ser diferente.
Eu não sei qual é a sua fé. Mas se você tem uma, se agarra nela com força. É âncora em tempestade. Se não tem, talvez esse seja um bom momento para buscar algo em que acreditar – nem que seja em você mesmo.
Você não é a soma das suas derrotas recentes. Você não é o último "não" que recebeu. Você não é a vaga que não veio.
Você é tudo que construiu até aqui mais tudo que ainda vai construir. O capítulo atual pode estar difícil – daqueles que você lê rápido querendo passar para o próximo – mas o livro ainda está sendo escrito. A caneta ainda é sua.
E – me permite a ousadia de afirmar – os melhores capítulos frequentemente vêm logo depois dos mais difíceis. Pergunte para qualquer roteirista: é assim que histórias boas funcionam.
Não vou te dar fórmula mágica porque ela não existe. Se existisse, eu já tinha comprado. Mas algumas coisas me ajudaram a colocar um pé na frente do outro:
Perder um emprego, um projeto, uma meta – é uma perda real. Não precisa fingir que está tudo bem. Não está, e negar isso só atrasa o processo. Chora, xinga, come chocolate. Faz parte.
Não precisa ser produtivo como antes. Mas acordar em um horário razoável, tomar banho, trocar de roupa mesmo sem ter reunião – isso ajuda mais do que parece. Seu cérebro precisa de alguma estrutura para não pirar de vez.
Sério. Aquela timeline de conquistas alheias não é a realidade completa de ninguém. Todo mundo tem seus momentos de desespero – só que ninguém posta foto chorando no banheiro. Limite seu tempo lá. Sua saúde mental agradece.
Com amigos, família, terapeuta, cachorro – qualquer um que esteja disposto a ouvir sem julgamento. O peso dividido fica mais leve. Palavra de quem ainda testa.
Conseguiu enviar um currículo? Vitória. Teve uma entrevista, mesmo que não tenha passado? Vitória. Levantou da cama num dia em que a vontade era ficar debaixo do cobertor até 2025? Vitória absoluta. Comemora.
Eu sei que virou clichê, e eu juro que estou me esforçando neste quesito. Mas sono, alimentação razoável e movimento físico – nem que seja uma volta no quarteirão – afetam diretamente como a gente processa emoções. Mente e corpo são o mesmo pacote. Não dá para cuidar de um e ignorar o outro.
Se você chegou até aqui – e eu agradeço por ter chegado – deixa eu te dizer algumas coisas diretamente:
O título no crachá nunca definiu quem você é. Só parecia definir. Era ilusão corporativa.
Empresas são estruturas jurídicas que existem para dar lucro aos acionistas. Você é muito mais que uma peça em um organograma que pode ser redesenhado a qualquer momento.
Um trimestre ruim, um ano difícil, uma fase complicada – nada disso apaga o que você construiu ou limita o que você ainda pode construir.
Você é as pessoas que te amam. Os momentos que você criou. O impacto que você teve na vida de outros. As risadas que você provocou, as histórias que você viveu, os abraços que você deu.
Isso nenhuma demissão tira. Isso nenhuma crise alcança. Isso nenhum layoff apaga.
Eu não vou terminar esse texto dizendo que encontrei um emprego incrível e que tudo se resolveu magicamente. Porque a vida real não funciona como post motivacional de coach, e eu não sei ainda como minha própria história vai se desenrolar. O roteiro ainda está sendo escrito.
(Teimoso que sou.)
(Alguns dias mais, outros menos.)
(Fé é isso, né?)
(Nem você está.)
Este ano foi difícil. Talvez o mais difícil. Mas ele também está acabando. E, cá entre nós, já vai tarde.
O próximo capítulo? Ainda está em branco. Esperando para ser escrito.
Por você. Por mim. Por todos nós que estamos atravessando esse deserto, um passo de cada vez, tropeçando às vezes, mas seguindo em frente.
Que venha o que vier. A gente aguenta.
🏋🏻 A gente sempre aguenta. Mesmo quando acha que não aguenta mais.
E hey – se não der certo nesta hora, pelo menos a gente tem história para contar. E histórias de superação sempre fazem mais sucesso que histórias de quem nunca caiu.
Nos vemos do outro lado. 🫱🏼🫲🏾
🆘 Se esse texto fez sentido para você, me conta nos comentários. Como foi seu ano? O que te ajudou a segurar a onda? Às vezes, saber que não estamos sozinhos já é metade do caminho de volta.


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